Remédio para a ansiedade das marcas

O remédio para a ansiedade das marcas

Dia desses, em alguma discussão sobre ansiedade, alguém largou na mesa uma pesquisa que mostra que os brasileiros desbloqueiam a tela do celular em média 78 vezes por dia. Mais espantoso do que esse número, foi o comentário “só isso? achei que era mais!” que teve eco logo em seguida.

O celular conhece nossa intimidade

A relação com o smartphone é só mais um traço do nosso comportamento ansioso frente ao aumento avassalador de estímulos que nos acompanha de uma década pra cá. Não é preciso muito esforço para encontrar um punhado de relatos no Medium sobre os conflitos de uma geração que vive conectada o tempo todo. Hiperconexão que tem como efeito colateral a dificuldade em repousar o foco em uma coisa só, como alerta um estudo recente da Microsoft, resumido na forma de uma comparação esquisita:

“Humans have shorter attention span than goldfish, thanks to smartphones”

Funciona como qualquer relação de oferta e demanda. A era da abundância da informação gerou a era da escassez de atenção. O que nos leva muitas vezes a perder coisas importantes a nossa volta.

CRÉDITO: @ESMITH_IMAGES/INSTAGRAM​

Só que esse não é o único problema. A longo prazo, também nos leva a não saber para onde estamos indo. É aquela sensação recorrente de ficar 15 minutos dando scroll no feed da rede social e no final não ter lido nada. Ou de passar meia hora escolhendo um filme no Netflix e aí se dar conta de que ficou tarde para assistir a alguma coisa. Deixa pra amanhã.
E não é que as marcas estão sofrendo do mesmo problema que as pessoas? O que é bastante lógico: marcas são criadas e gerenciadas por pessoas.

As marcas passam pelas mesmas angústias que eu e você. Elas precisam acompanhar o ritmo do mundo. Sofrem de FOMO (Fear Of Missing Out), não podem perder nada. Querem estar no Facebook, no Instagram, no Snapchat – sem nem colocar na balança pra ver se isso faz algum sentido. Precisam de um app, desejam uma vida mobile excitante. Querem inovar, querem ser simpáticas, querem ter frescor. Tudo ao mesmo tempo.
A curto prazo, o quadro é de uma marca ansiosa. A médio e longo prazos, os efeitos mais comuns são falta de consistência, falta de foco, falta de objetivos claros na comunicação: falta de resultados.
Mas nem tudo está perdido. Há um remédio muito antigo, utilizado desde civilizações remotas, de nome simples e fórmula complexa: estratégia.

O tratamento é conservador, nada de procedimentos revolucionários. Assim como nós, as marcas precisam parar, respirar e definir conscientemente o que é mais importante para elas. E, então, concentrar sua energia nessa direção. Quanto mais são as opções, mais apurado precisa ser o senso de escolha. E só com um trabalho de planejamento que mergulhe no histórico da marca, no comportamento do seu público e no ambiente em que se dá essa convivência, é possível definir uma linha estratégica a seguir.

Estratégia segundo Alfred D. Chandler:
“Definição de metas de longo prazo para um projeto e adoção de linhas de ação e alocação de recursos necessários para atingir essas metas”

O uso adequado desse medicamento diminui a ansiedade, está comprovado. E dá segurança para ter onde se segurar quando tudo parece um caos. Mas o mais importante é que dá resultado quando respeitado o uso contínuo. Com uma estratégia definida e todas as ações orientadas a ela em nome de construir algo maior, as marcas podem até perder algumas ondas, mas certamente irão chegar ao final do ano tendo acumulado mais valor. Terão usado sua energia ($) digital de forma produtiva em favor do negócio ($$).

Sorte das marcas. Já as pessoas, para essas não sei se existe uma receita tão simples. Mexer nesse assunto é sempre como puxar um fio do novelo e se deparar com o emaranhado das dores e delícias de uma vida de informação e conteúdo quase infinitos – que abrem uma janela pro mundo, mas como você é um só, não consegue dar conta. É melhor salvar pra ler mais tarde (cá entre nós: você deve ter pensado em fazer isso antes de começar a ler esse texto). Ainda assim, acho que o saldo é bastante positivo: lidar com a ansiedade é um preço módico a ser pago por tudo de bom que a internet nos trouxe.